Rei Édipo: o silêncio no desejo pela verdade – Parte #3

Édipo e o destino trágico do desejo pela verdade

Se atentarmos à caracterização da própria personagem, Édipo, este pode ser descrito como, por um lado, “(…) o homem das escolhas sem hesitação, confiante em si e consciente do que vale (…)” (Fialho, 2006, p. 14). Curiosamente, o herói sofocliano apenas aprenderá com o tempo a rescaldar a sua euforia pela verdade sem atentar às armadilhas da aparência através dos juízos apriorísticos, facto que aliado ao desconhecimento das suas limitações, recairá no estigma da queda, na grandeza, mas que permanecerão intactas quanto à sua dimensão.

Ainda, Édipo não é um homem perfeito já que o seu temperamento violento, irritável e irredutível, que durante os momentos de cólera e fervor sentimental, o levam a proferir palavras terríveis. Contudo, há que distinguir momentos de pleno domínio de si e momentos de ardor e paixão. Será interessante observar que o seu desejo desenfreado pela verdade irrompe desta tensão entre os dois momentos, ora sendo mais refreado aquando se apodera de si mesmo, ora intensificando-se quando a paixão o assola. De facto, a densidade do silêncio enquanto momento de ocultação ganha consistência quando Jocasta se apercebe finalmente da verdade acerca das raízes de Édipo e o tenta dissuadir.

Se a vida de Édipo foi toda vivida de forma aparente, fruto de falsas relações, pode dizer-se que a cegueira a dominou de forma completa. Contudo, o castigo ao conhecer a sua verdadeira identidade é já a cegueira física como forma de amenizar o seu sofrimento. O confronto com os habitantes seria insuportável depois de toda a sua postura e actuação aquando o seu inquérito pela verdadeira identidade do assassino de Laio, pessoa que poluía a cidade e era responsável pela peste que assolara Tebas. O poder do desejo transitou de uma forma simbólica de busca incessante pela identidade na procura do Real para uma forma física, actual e encarnada que operou o corte de forma terrível e atroz com esse Real, que como já foi dito anteriormente, pela sua impossibilidade nega o desejo reenviando-o para a busca incessante. O vazio cria o desejo que impele a uma viagem pela descoberta do Real que, em última instância e de forma idêntica ao destino de Édipo, coincide a própria busca pelo identidade.

Sendo o Rei Édipo uma tragédia que cruza diferentes vectores tão próximos e caros à Humanidade enquanto simbologia de uma cultura enraizada no desejo e no conhecimento enquanto vectores transversais, apenas podemos terminar esta reflexão com esta citação de um Anónimo: “Cuidado com o que desejas, pode ser que o recebas”.

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