Rei Édipo: o silêncio no desejo pela verdade – Parte #2

Posições teóricas acerca do desejo e relação com a obra

Freud tomou o medo como pano de fundo do drama Edipiano, o lugar clássico para todas as disposições contemporâneas acerca da subjectividade. Uma das funções mais proeminentes do medo incide na forma como este, sob a forma do poder do Pai sobre a trindade da família, opera um corte que faz a separação da criança com o mundo, onde previamente, do ponto de vista da criança, ela e o mundo apareciam indivisíveis. Efectivamente, a figura paternal assume a função de corte da relação umbilical entre a criança e a mãe, no início indistinta àquela. Se a criação de um sujeito é necessário criar uma “residência”, um local de propriedade e de pertença cuja distinção seja feita de forma vincada entre ele e o mundo. Torna-se fulcral a presença do medo e do seu despojamento para a criação desse sujeito. Ora, quando o medo é despojado torna-se possuído, contido sob a forma de uma posse – uma experiência que é possuída. O sujeito torna-se na casa do unheimlich[1]. Por sua vez, o trauma constitui a marca indelével do sofrimento do passado, o medo intenso. Encontra-se espalhado por todo o sujeito como um conjunto de linhas de fractura, dissolvendo a sua auto-possessão coerente num marasmo de nomes e memórias. Pensando a partir destes pressupostos, podemos observar uma correlação com a figura heróica de Édipo, já que este parece assolado por um medo, que ganha consistência gradualmente através do desenrolar dos acontecimentos, a princípio inconsciente mas que rapidamente se ressente e se torna o móbil central, desaguando no final trágico com o acto de cegueira. De facto, o medo pode ser um elemento crucial na compreensão da tragédia enquanto obra por excelência do conhecimento de si. O profundo desejo e avidez com que procura constantemente conhecer as suas raízes conduzem-no a essa separação, a esse romper com o mundo e com o Real, que por definição lacaniana, comporta o impossível, aquilo que não cessa de não se inscrever. De facto, o medo opera esse corte com o imaginário, a instância do desconhecimento, da ilusão e da alienação (a que Lacan identifica com o estado do espelho), mas termina numa impossibilidade de transição para a esfera do Real já que a mediação que devia ser feita através do registo simbólico falha. Esta falha deve-se ao sentimento de desejo (elemento fundamental, para Lacan, na compreensão do hiato entre o Eu e o Real, que precisamente pela sua separação aquele é impelido para este último) que apesar de ter servido, a par do medo, igualmente de móbil para a verdade e o conhecimento das raízes de Édipo, este sofre a dramática confirmação de que essa ruptura não só é fundamental como não pode ser superada. Com isto confirma-se a caracterização da peça como uma obra da condição humana, essa confirmação e consubstanciação de um destino (trágico) cujo propósito termina na conclusão de que o seu inverso é inegável e inelutável. Ora, este facto coaduna-se com um duplo efeito irónico que, no momento em que há um retardar do desvelamento, emerge a suspeita de que algo terrível se abeira; e é essa suspeição que faz desencadear uma viragem cujo resultado conduz à descoberta da verdade que, por sua vez, emerge de uma forma ainda mais absoluta e irreversível.

É interessante observar que não o medo assume um papel relevante e central em toda a peça, como a própria relação entre revelar/ocultar emerge de uma relação de saber/poder, em que Édipo protagoniza essa mesma tensão, já que ele próprio era o governante da cidade de Tebas, e, por mandato (outra vertente de poder) dos deuses, instaurou-se-lhe a obrigação de descobrir a poluição que pairava naquela cidade. Efectivamente, o saber, neste caso o conhecimento através da descoberta da verdade, é indissociável da questão do poder na medida em que não é apenas necessário o poder político, mas, sobretudo, o poder do conhecimento. Neste sentido escreve Foucault, na sua obra Vigiar e Punir, que: “(…) temos antes que admitir que o poder produz saber; que poder e saber estão directamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um  campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”.


[1] Conceito de origem freudiana, pode ser definido como o instante onde algo pode ser familiar, no entanto, é ao mesmo tempo estranho, tornando esta relação demarcadamente desconfortável e dominado pela estranheza da dualidade de sentimentos coexistentes.

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