Rei Édipo: o silêncio no desejo pela verdade – Parte #1

Tragédia do conhecimento de si / condição humana

Binómio: luz/trevas, conhecimento/ignorância, linguagem/silêncio

O binómio linguagem/silêncio revela uma tensão constante com o binómio revelação/ocultação. De facto, sob o fundo transparece um dilema essencial entre aparência e verdade. A tragédia inicia-se com o mandato do oráculo para que se descubra e castigue o assassino de Laio ou, caso contrário, a pestilência que aniquila a cidade não cessará. A partir deste momento despoleta-se toda uma sequência de eventos, que pela mão irónica, revelando-se mesmo como trágica, faz o conhecimento sucessivo de todo o fio condutor até ao desfecho final estar mais próximo ou afastado da verdade, onde a própria linha entre essa verdade e a aparência é muito ténue. Contudo, a grande linha de interpretação que propomos incide sobre a questão do silêncio enquanto momento com uma carga semântica profunda e a própria verdade que acaba por incendiar toda a tragédia pois quanto mais próximo dela mais o terror parece dominar.

Desde já podemos observar um aspecto interessante relativamente à palavra que aparece manifestamente numa dupla acepção ou ocorrência, pois tanto serve de revelação como também de ocultamento, e, neste sentido, como silêncio. Do lado do silêncio, ou melhor, aqueles que se manifestam contra a revelação, está Tirésias, cujas palavras que demarcam a sua entrada estão revestidas de um dramatismo acutilante: “Oh, oh! como é terrível o saber quando não traz vantagem possuí-lo (…)” (316). Do outro lado, encontram-se outras personagens cuja necessidade de revelar é latente. Entre elas encontra-se o mensageiro de Corinto que possui um papel fundamental no desvelamento. Ainda, Jocasta começa por encontrar-se do lado da revelação mas quando sozinha atinge a vertigem do conhecimento, rapidamente foge da verdade aconselhando Édipo a fazer o mesmo. Contudo, Édipo é o opositor de maior intensidade relativamente ao silêncio, ainda que sendo levado pelas tramas da aparência, não tolerando o silêncio por parte de ninguém pois deseja tão fortemente encontrar a verdade (acerca do assassino de Laio). Um momento interessante cuja reticência projecta esta atitude radical manifestada surge no episódio IV, quando Édipo recusa fugir da verbalização daquilo que já percebera, ao que responde de forma sofrida: “E eu de ouvir, mas tem de ser ouvido” (1170).

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