A violência epistemológica e a reemergência da Pedagogia

(…) A pedagogia só por imposições artificiais e tendenciosas foi remetida para a posição de figura do passado onde, na realidade, nunca se cantonou e que, em última instância, nunca lhe foi reconhecida. Assim, o retorno das pedagogias não é mais do que a reemergência assumida de um posicionamento que a violência epistemol6gica positivista tentara infrutiferamente silenciar.”

in Carvalho, A. D. (1993). A Educação como Projecto Antropológico. Porto: Afrontamento

No presente excerto, Adalberto Dias de Carvalho descreve o que o próprio subtítulo donde aquele surge: o retorno das pedagogias. O autor analisa criticamente o percurso histórico, ao nível epistemológico e antropológico, da educação até às ciências da educação, onde deixa claro o desvirtuamento de um projecto antropológico em termos educacionais, designadamente por um positivismo e cientismo exacerbados que “(…) tentara[m] infrutiferamente silenciar”. Aliás, todo o parágrafo deixa transparecer um certo desabafo angustiante do autor perante os ataques que a educação e todas as disciplinas a ela afectas foram sofrendo devido a uma crescente preocupação teórica e, sobretudo, praxiológica (especificamente ao nível metodológico-didáctico). Todo o contexto de florescimento das ciências como a psicologia e a biologia foram modificando o espírito científico ao ponto de ascenderem a um estatuto de tal forma inabalável que todas os outros conjuntos de saberes ora se reajustavam aos novos métodos ora eram “cantonados” e completamente secundarizados no contexto da Ciência.

No entanto, atentemo-nos ao início do excerto, pois o conceito fundamental em jogo não é o de educação, mas o de pedagogia. Seguindo a sua etimologia, pedagogia provém do grego, onde a junção de paidós (que significa criança) e agodé (que quer dizer condução) desagua, literalmente, na condução da criança, consubstanciado na figura do escravo na Grécia Antiga que estava encarregado de cuidar das crianças e conduzi-las à escola. Através da evolução semântica do conceito, foi sendo desmembrado e acoplado com diferentes significados, mas que acabou por convergir subtilmente nos processos da educação delimitados às crianças (por ampliação, será a androgogia que se referirá aos adultos). Contudo, um ponto fundamentalmente capital era a concepção antropológica do homem que subjaz nas diversas teorias pedagógicas, mas sobretudo no entendimento de que a criança já não era um “adulto em ponto pequeno” mas era dotada de características e idiossincrasias sui generis.

De facto, a pedagogia nunca obteve o reconhecimento merecido, sendo constantemente secundarizada perante os avanços das diversas ciências que se iam apoderando do estudo da educação e dos processos epistemológicos subjacentes. A partir do positivismo, a “febre epistemológica” para a determinação do objecto, processos e métodos conducente a um estudo que produzisse conhecimento verdadeiro foi de tal maneira esmagador que a pedagogia foi sendo ignorada em virtude de uma maior cientificidade. Contudo, e tal como Adalberto Dias de Carvalho afirma, o retorno das pedagogias demonstra precisamente a fraqueza e capitulação anunciada desse cientismo positivista, cuja violência sempre tentou desvincular e destituir o verdadeiro lugar da pedagogia no estudo educacional, mas que nunca efectivamente conseguiu. Por tal facto, as “imposições artificiais e tendenciosas” corresponderam às tentativas desenvolvidas no período de desenvolvimento da Ciência, cuja discurso e metodologia monolítica ignorou por completo todo o discurso e densidade antropológica que a pedagogia sempre imprimiu à temática da educação.

Parece-nos ainda de assinalar uma outra questão que o autor também endereça. A investigação contemporânea vive de uma comunicação intersubjectiva entre indivíduos, mas que pela absoluta necessidade de consenso não pode senão decorrer num ambiente mais ou menos homogéneo sempre partilhado por vários sujeitos. Ora, a dimensão do sujeito individual foi sendo diluída neste panorama em virtude de uma afirmação de toda a comunidade que de facto é a grande receptora de todas as propostas pedagógicas. Sendo o autor defensor de um círculo epístemo-antropológico pois há uma recorrência entre finalidades e princípios (aliás, o motivo do grande cisma entre a filosofia da educação e as didácticas) derivando numa oposição directa entre estaticidade e estanquecidade de uns e outros.

Em tom de conclusão, o autor parece querer vincar que o retorno das pedagogias trata-se apenas de um ressurgir para tomar um lugar que a pedagogia nunca perdeu, apesar dos cientismos e positivismos tentarem exterminar. Pretende, assim sendo, afirmar a importância de um projecto antropológico na educação que não pode ser descurado já que está intimamente ligado ao próprio sujeito fundamental de toda a educação, a saber, o conceito de homem.

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