Capítulo 2: Interculturalidade e Personalismo: Uma abordagem antropológica a partir da interpelação crítica de Abdallah-Pretceille, da obra: Carvalho, Adalberto D. C. (org.), Da Ética à Utopia em Educação, Edições Afrontamento: Porto, 2005

No referido capítulo, o autor problematiza a questão dos limiares da sociedade da globalização, equacionando a pluriculturalidade cujas rupturas dão lugar à proliferação de diferentes metodologias sociológicas para a investigação das culturas. Terá de se repensar o conceito de cultura, reassumindo a heterogeneidade, complexidade e a diversidade cultural, entendida na tensão da universalidade/singularidade do ser humano.

O autor procede a uma analítica cujo enfoque recai sobre a díade multiculturalista/interculturalista, onde subjazem, transversalmente, dois conceitos fundamentais – a identidade e a alteridade. Constatando-se que o tecido social e educativo está cunhado por uma heterogeneidade estrutural crescente, infere-se imediatamente que, no campo educativo, a escola representa um lugar de confronto simbólico das diferentes normas. Assim, Abdallah-Pretceille coloca a questão de se saber como pensar a pluralidade e a diversidade sem se degenerar no diferencialismo ou no universalismo. Alertando contra os perigos da absolutização dos dados culturais (culturalismo), defende uma concepção da culturalidade, que entende a complexidade e pluridimensionalidade do real, partindo de processos e interacções, numa dinâmica dialecticamente construída e focalizada no sujeito portador da cultura. Com isto, abandona-se a lógica estática e de pertença a uma determinada cultura, cuja classificação se baseia na descrição e catalogação das idiossincrasias das diferentes culturas. Para tal mudança metodológica, epistemológica e filosófica, opera-se uma passagem na abordagem da diversidade cultural (enquanto ordem e sistema) para uma cultura como acção e comunicação. Este novo paradigma evita a ambiguidade da ideia de “método”, pois assume-se como um discurso. Não pretende construir um sistema explicativo, mas colocar permanentemente em questão todos os seus pressupostos, abandonando a mera descrição unívoca e estática, para abarcar a compreensão, integrando sempre o sujeito como mediador entre as suas representações e a própria realidade. Com isto, rejeita-se a lógica da pertença (códigos e normas) em prol de uma lógica relacional e instrumental, onde a diversidade cultural é equacionada na sua heterogeneidade intrínseca.

A identidade/alteridade e a universalidade/diferença enquadram este novo paradigma numa perspectiva dinâmica – enquanto algo em constante movimento e mudança – e dialéctica – pois reintegra constantemente os dois termos. No fundo, o discurso intercultural prima pelo reconhecimento e introdução do indivíduo na vertente epistemológica e fenomenológica, pela reciprocidade das perspectivas, reassumindo o “eu” enquadrado numa problemática identidade/alteridade e consumado na abordagem interaccionista e situacional, e pela dialéctica diversidade/universalidade que estrutura a descoberta do e a relação com o Outro.

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