A Noção de Educação

Por conseguinte, a educação é em si mesma um processo de descoberta dos valores que são dignos de serem perseguidos como objectivos. (…) Dirigir-se a alguma fonte exterior para obter fins é fracassar em conhecer a educação como um processo progressivo.” (L. W. 5:38)


A educação constitui uma das temáticas mais transversais a toda a condição humana, tanto na constituição do ser humano a partir das inúmeras vertentes e dimensões, como na sua exterioridade, do seu transbordar a partir do interior para o mundo externo e meio circundante. Denotando-se desde já a multiplicidade (e consequente complexidade) de sentidos, esta encontra-se desde logo na raiz etimológica da própria palavra.

Por um lado, provém de educare, que significa “criar, cuidar, alimentar, nutrir e formar ou instruir”; por outro lado, radica em educere, significando “conduzir, sacar ou extrair, avançar, elevar”. Partindo do étimo educare, e tendo em conta a tradução literal de quase todos os conceitos enumerados, evidenciamos pela conotação que encerra em si, o conceito de nutrir, dado que aqui pressupõe um entendimento prévio das necessidades daquele que é nutrido, pois aquele que nutre doseia os diferentes momentos (cruciais), permitindo uma adequação particular ao nutrido.

Inicia-se assim na instrução, conducente a uma constante e prolongada formação do ser humano, pois este “nasce com uma forma ou modo de ser, mas não nasce formado”. (Masota & Durán: 2000). É neste ponto que o ser humano se distingue dos demais seres, pois possui uma plasticidade, capacidade que lhe permite adaptar-se e modificar-se perante o seu meio circundante, caracterizando-se ainda por uma indigência, que segundo Masota & Durán, situa o ser humano como o mais indefeso dos seres. As potencialidades encontram-se indeterminadas, não se esgotando na necessidade concreta (como os animais), mas “desdobrando-se amplamente”.

Contudo, a educação realiza-se também ao nível da sua exteriorização, não apenas entendida como intencionalidade (dirige-se a algo externo a si mesma), mas também como acto de extrair, relembrando a maiêutica socrática, num propulsionar a partir de dentro as próprias possibilidades do educando, para o exterior, actualizando-as, num acto de transformação e modificação contínua e progressiva. Neste momento parece coligir a ideia de guia, por parte daquele que não só tem a tarefa de sacar essas possibilidades, mas também, num certo sentido heiddegeriano, de mostrar outros caminhos possíveis procedentes de uma estrutura prévia, que se projecta num horizonte de possibilidades ao longo do tempo.

A educação pode assim ser entendida como um processo em aberto, cujo caminho é percorrido pelo sujeito, imbricando na sua formação tanto um conjunto de conhecimentos e técnicas, como de valores. Neste sentido, a educação é uma acção integradora e relacional, já que supõe a interacção de vários intervenientes, recebendo um cunho eminentemente ético.

Assim, reportando-nos, por exemplo, ao universo tão abrangente como o cinematográfico, e tomando como referência o filme de culto “O Clube dos Poetas Mortos”, nele está patente desde o início, logo na cerimónia de abertura do colégio Weston, a declaração do director relativamente ao estatuto da educação entendida naquele meio: “Tradição, Honra, Disciplina e Excelência”. Estes quatro pilares constituem a base de toda a educação ministrada naquele colégio, podendo-se traduzir em quatro valores. A luz do (rígido) conhecimento tanto pode iluminar como ofuscar (aumentando a zona de sombra), parecendo assumir, neste último caso, um tom autoritário. É a educação na sua vertente castradora, pois a tradição, como se de uma norma consuetudinária se tratasse, parece declarar subtilmente um acto de submissão a todo um património cultural e humanístico rígido, para ser assimilado sem contestar. A disciplina parece ser o meio para atingir a honra, toda uma acção de teor ético-antropológico, pois pressupõe um modelo cristalizado do aluno, algo inflexível e inquestionável, que culminará na excelência. Não obstante, estamos na presença de um percurso, um trilho. Contudo, este tende para um telos, desvinculando a educação enquanto processo em si mesmo.

Relembra-nos a distinção kantiana entre legalidade e moralidade, onde na primeira impera uma antevisão e retraimento de determinada acção devido a potenciais sanções, enquanto na segunda emana o respeito à lei moral como um fim em si, sem se ater a meios ou inclinações.

A educação contém na sua essência, como já foi referido, um acto de libertação, de dentro para fora, pressupondo a relação entre educador e educando num âmbito livre e autónomo. Por tal facto, não pode ser apresentada como um sistema de conteúdos fixo e inalterável, pois desta forma, eliminaria a exterioridade e a constante reaproximação à realidade circundante. No fundo, a educação trata de responder ao incessante desafio das sociedades, dos seus valores, conhecimentos e técnicas. Neste sentido, Kant afirma que “as crianças devem ser educadas não para o estado presente do género humano, mas para um estado futuro melhor.”

Um importante conceito ressalta desta frase: o tempo. O acto de educar acontece no e a partir do tempo, pois mais do que estar circunscrito à instituição escolar, balizada desde a educação pré-escolar, por volta dos seis anos, até ao início do período do ensino superior, por volta dos dezoito anos, aquela é uma aprendizagem ao longo da vida. Dá-se a partir do tempo, na medida em que este “não é mais do que a forma do sentido interno, isto é, da intuição de nós mesmos e do nosso estado interior. Realmente, o tempo (…) determina a relação das representações no nosso estado interno”. É o tempo (entendido kantianamente) que ordena e constrói sucessivamente o homem antropologicamente e, por isso mesmo, educável. Estendendo até ao género humano (as sucessivas gerações), a espécie humana alcança a sua natureza plena no desenvolvimento progressivo da racionalidade. Chegamos neste ponto a um momento fulcral: é a razão que permite ao homem enquanto ser entre os demais, distinguir-se pela superação das limitações no contexto da experiência imediata, decorrentes das insuficiências do instinto. No fundo, e mais uma vez recorrendo a Kant, o enfoque realça-se no verbo (enquanto acção) e não no substantivo (enquanto categoria), pois “de mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar”. Relembrando o filme anteriormente referido, o professor Keating é o exemplo desta máxima enquanto educador, incitando nos seus alunos o espírito crítico, isto é, reflectir acerca daquilo que recebem, num questionar constante, assumindo assim um papel activo e actuante. Perpassa assim em todo o filme dois modelos educativos: uma dito mais clássico, apresentado pelo director do colégio no discurso de abertura, onde o educando possui um papel passivo, assimilante e subserviente; e um outro mais progressista, donde subjaz a figura do livre pensador, aquele que critica e reflecte sobre aquilo que recebe do exterior, de forma a reorganizar a sua estrutura interna, desenvolvendo a sua personalidade, individuando-se na relação intersubjectiva que fomenta todo o ambiente educativo. Num tom hegeliano, relembra a acção a tomar perante o que provém do exterior, isto é “negar o imediatamente dado”.

É o culminar da razão crítica, característica distintiva do ser humano, cujo papel humanizante se traduz numa celebração da liberdade e da autonomia, apenas possíveis enquanto igualmente aplicadas no próprio acto de aprendizagem, tornando-se assim parte da engrenagem que faz mover toda a estrutura que, num primeiro momento apresenta o indivíduo, e num segundo momento a sociedade, composta por indivíduos particulares e diversos entre si. A educação gera-se a si própria enquanto processo construtivo do homem.

Tem-se assim que a educação acaba por ser um trabalho de redescoberta e de desvelamento, numa aproximação heideggeriana, do interior de cada um de nós, num acto temporal contínuo e progressivo, actualizando e integrando todo a dinâmica interpessoal, numa espiral de libertação, rumo a um futuro cada vez melhor.

Afinal, reportando-nos a um quadro eminentemente democrático, de onde se releva o papel do cidadão consciente e responsável, a educação poderá traduzir-se como um “tesouro a descobrir” dentro de cada um de nós.



Kant, Immanuel, Sobre a Pedagogia, trad. João Tiago Proença, Lisboa: Alexandria Editores, 2003

Tal expressão aparece consolidada no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o séc. XXI, com o título “Educação: Um Tesouro a Descobrir”, presidido por Delors, J.

Kant, Immanuel, Crítica da Razão Pura, Lisboa: FCG, 2001

Citação de Kant.

Título do já referido relatório para a UNESCO, cujo subtítulo é a própria tese que subjaz a todo o texto, ou seja, o entendimento da educação como um tesouro a descobrir.

About these ads

One thought on “A Noção de Educação

  1. Caro Bernardo,
    meu nome é Moises, sou graduando do curso Filosofia na UFMG, universidade federal de Minas Gerais, uma instituiçao brasileira. Entro em contato apos pequisar seu nome no programa de mestrado da UP. Seria possivel voce anotar meu email e entrar em contato para me ajudar em um problema?
    agradeço desde já..
    Abraço

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s