A cultura como universo simbólico

Lévi-Strauss, na obra Antropologia Estrutural, definiu os símbolos como os equivalentes significativos do significado. O símbolo supõe uma estrutura dupla, um representante e um representado. É nesta relação que tanto o estruturalismo como a linguística moderna (Saussure) realçam como sendo primordial, embora a linguística destaque a relação entre o significante e o significado no signo. Ora, os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam, já que o significante precede e determina o significado.

Os factos sociais são simbólicos. Desta forma, a cultura é simbólica pois pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, como por exemplo a linguagem, as regras matrimoniais, as relações económicas, a arte, a ciência, a religião, entre outros. Assim, a explicação do símbolo pelo “real” é ilusória, sendo naquela interpretação da cultura que necessitamos instalar-nos, recusando toda e qualquer redução ao naturalismo. Por exemplo, o mito e o ritual não são para serem compreendidos em função do real, uma vez que consistem numa organização da experiência sensível no âmbito de um sistema semântico. Tomando outro exemplo apresentado por Deleuze, as relações irmão/irmã, marido/mulher, pai/filho e tio materno/filho da irmã constituem a estrutura do parentesco mais simples cujos elementos não possuem valor determinado à partida, mas determinam-se reciprocamente dentro da relação. No campo da linguística, o simbólico identifica-se com a língua. Tomando a unidade mínima de uma linguagem, o signo linguístico tem uma dimensão triádica: une o conceito (significado) a uma imagem acústica (significante) e supõe (a coisa), (o real), mas como que entre parênteses, pois o real, aqui também, é aquilo que nunca se atinge directamente, mas que está sempre suposto. É neste sentido que o se simbólico identifica com a língua pois têm as suas regras em si mesmos, não sendo expressões de fenómenos extrínsecos.

Segundo Hjelmslev, a língua é uma estrutura onde os elementos de cada categoria comutam uns com os outros. Retomando a questão da prescindibilidade de compreender o simbólico pelo recurso ao “real”, Lévi-Strauss parte do produto, do resultado, e, em sentido inverso, põe em relação um número elevado de temas e produtos, hipoteticamente, através de algumas regras fundamentais. Assim, a análise empírica evidencia as transformações que vão de uma mensagem a outra, ou seja, aquela demonstra ou actualiza a correlação que ocorre ao nível do sistema. Assim, uma vez demonstradas as correlações, pode demonstrar-se que se trata, do princípio ao fim, do mesmo universo simbólico, ou seja, o conjunto de lugares e de regras, onde numa determinada cultura, se pode operar, para todos e cada um, a passagem da natureza à cultura.

Foca-se, tal como a tradição da linguística moderna, do estruturalismo e da psicanálise, a arbitrariedade da relação entre o significante e o significado (do representante e do representado) como axioma fundamental para a compreensão do universo simbólico, que, neste caso, toma a forma da cultura. No entanto, tal como argumenta Lacan, no conjunto da cadeia significante (sendo que a psicanálise enfatiza o papel da linguagem, a visão lacaniana fornece uma resposta de tipo estruturalista), as significações estabelecem-se apenas de modo parcial. Estando de acordo com o carácter arbitrário acima referido, afirma que existem alguns pontos de fixação entre o significante e o significado (descrito na sua teoria dos “points de capiton”). Neste sentido, existe sempre um eixo que – segundo a psicanálise corresponde à função do complexo de Édipo – permite ao eu e ao mundo organizarem-se, tese também acolhida por Lévi-Strauss, cuja eleição recai na proibição (do incesto).

A cultura enquanto produção humana compõe um universo simbólico cuja rede de relações e significações lançam o homem num mundo codificado e repleto de referentes não-arbitrários (porque estabelecidos convencionalmente) mas cuja ambivalência (ou mesmo plurivalência) de objectos e significados são constantemente interpretados. Ora, o homem é um produtor de símbolos por excelência, já que estes são o elemento mediador entre si e o mundo. No caso da religião, Eliade apresenta-nos o ser humano como homo symbolicus, pois todos os factos religiosos são imbuídos de carácter simbólico, já que qualquer acto religioso aponta para uma realidade metaempírica. No campo da arte, Hegel destaca a arte simbólica como pré-artística e representante de significações abstractas, ainda não individualizadas, cujas formas que lhe pertencem podem ser adequadas ou não. Há um esforço para engendrar a intuição e representação artísticas, pois a interioridade do conteúdo é apenas aproximativa, que no caso da arte simbólica não atinge a divindade na sua completude.

13 thoughts on “A cultura como universo simbólico

  1. a cultura é simbólica pois pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, como por exemplo a linguagem, as regras matrimoniais, as relações económicas, a arte, a ciência, a religião, entre outros.

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